Impulsionar a construção civil dispensa demagogia

Jornal:    GAZETA MERCANTIL
Editoria:  EDITORIAL
Assunto:  Construção Civil
Data:      12/01/2009 – segunda-feira

Impulsionar a construção civil dispensa demagogia
O plano de estímulo à construção civil, um dos itens da reunião do governo com quinze representantes do setor produtivo, começou a sair do papel. Segundo a minuta do plano, divulgada pela agência Bloomberg News, o presidente Lula pretende distribuir gratuitamente habitações. Na proposta, o governo também deverá conceder subsídios para a população de menor poder aquisitivo para a compra de imóveis de baixo custo. As lideranças da Câmara Brasileira da Indústria de Construção (CBIC), que participou da formulação do plano confirmou tais propostas. A CBIC revelou que o plano não incluía detalhes de gastos, mas o R$ 1,2 bilhão destinado anteriormente à habitação popular deve aumentar para R$ 4 bilhões. Segundo a CBIC, o conjunto final das medidas será anunciado até o final de janeiro.
 
Não há dúvida de que o setor da construção civil tem um enorme efeito multiplicador sobre todos os demais setores da economia. Também são inegáveis os sinais de retração na atividade econômica. A pesquisa sobre produção industrial do IBGE mostrou que em novembro 21 dos 27 setores analisados pelo instituto tiveram forte recuo, apresentando queda de 5,2% na produção industrial daquele mês em relação a outubro. Um dos principais fatores de preocupação revelados pela pesquisa foi que até mesmo os bens de capital, que mantinham expansão desde setembro, quando outros setores já refluíam, apresentou forte desaceleração, com queda de 4,1% em novembro, ante outubro. Em relação a novembro de 2007, os investimentos em máquinas e equipamentos recuaram 10,9%. E, nesse quadro, os bens de capital para a construção civil despencaram 8,1% em novembro, em comparação com o mês anterior.
 
O reflexo desse recuo da produção industrial no PIB será inevitável. O desempenho da indústria em novembro voltou aos padrões de maio de 2007, um resultado que terá significativo impacto principalmente no PIB do primeiro trimestre deste ano. Nesse quadro a atitude de preocupação do governo com a construção civil faz todo sentido. Resta saber se o conjunto de propostas desse plano a ser anunciado representa o melhor caminho. Uma ponderação importante é que este tipo de subsídio, literalmente a fundo perdido, não é a principal reivindicação do setor para enfrentar a crise. A Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco) informou que, depois de segurar os pedidos de reposição de estoque até a segunda quinzena de dezembro, os varejistas do setor voltaram às compras na primeira semana do ano. A Anamaco revelou que as lojas estão dispostas a aumentar estoques em até 10% para obterem descontos nos pedidos.
 
Para esses varejistas o consumo retoma a normalidade se e quando ocorrer redução de burocracia nos financiamentos com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), um autêntico gargalo anticonsumo. A Anamaco mostrou que um consumidor com renda de até R$ 1,8 mil precisa de avalista e garantia extra para um financiamento de R$ 25 mil. O setor recupera vitalidade com mera redução de exigências burocráticas nesses financiamentos.
 
Por outro lado, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), depois de reconhecer os riscos da crise para o setor, revelou que até outubro o segmento alcançou crescimento de 36,5% na receita de vendas acumuladas em 2008, em relação ao ano anterior. Com a crise no último bimestre, o aumento acumulado de vendas em 2008 deve chegar a 28%. Porém, até março, os materiais básicos de fundação devem então perder vendas, mas os materiais de acabamento devem apresentar significativo crescimento, uma vez que o prazo médio de conclusão de uma obra desde o lançamento é de dois anos. O problema, portanto, estará na reposição dos lançamentos, e isso depende da oferta de crédito, essencialmente. A revitalização da indústria da construção civil dependerá do custo final do dinheiro para que o consumidor se anime para o consumo dos novos lançamentos.
 
É fato que o setor de habitação popular enfrenta uma demanda reprimida de 8 milhões de residências. É obviamente urgente enfrentar essa imensa dívida social. Porém, é inevitável a avaliação de que, independentemente da boa intenção do governo federal, o plano de distribuição gratuita de casas terá, primeiro, expressivos impactos eleitorais, com reduzido atendimento das reais necessidades e reivindicações do setor. É indiscutível que essa crise afeta a economia como um todo e não a uma só classe social. Esse tipo de ação, portanto, guarda proximidade com a mais pura demagogia. E, sem dúvida, exercida no pior estilo latino-americano.
  
Fonte : http://indexet.gazetamercantil.com.br/arquivo/2009/01/12/418/Impulsionar-a-construcao-civil-dispensa-demagogia.html


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